A biblioteca básica do motociclista cool


Moto é cultura, porquê prova o catálogo da exposição do Guggenheim (Reprodução)
Você sabe por que a Harley-Davidson foi durante décadas uma marca associada ao estilo bad boy? Muita gente acha que foi o filme Easy Rider (1969) o culpado pelo estrago. Não foi, só pegou carona na pecha de “objeto do libido dos rebeldes” que a Harley ostentava (involuntariamente) desde a dezena anterior – e que hoje ajuda (camufladamente) a vender suas gorduchas cromadas para a galera de barba branca e rabo de cavalo.
Deslindar exatamente o fio dessa meada é meio caminho pra você turbinar sua paixão por motos. Não importa seu status: bad boy/girl, outsider, motoboy, ou somente enamorado pela vertigem provocada por duas rodas empurradas por um motor localizado no meio das suas pernas.
+ Não basta correr, é preciso ter estilo+ A melhor camiseta pra dar um rolê sobre rodas+ O que uma picape pode fazer por seu estilo
O trajo é que quanto mais você souber sobre história (ou as narrativas menos suspeitas dela), mais sua paixão por motos será genuína. Ler é uma boa forma de se ilustrar.
Sobre o lado outlaw da Harley, vamos por partes. Durante a II Guerra (1939-1945), a Harley destinou praticamente toda a produção ao esforço bélico. O roteiro começa transcendente, mas…
Grande segmento dos soldados que voltavam do front, por razões compreensíveis, só queria saber de diversão. Uma moto era o suprassumo da liberdade, mormente na Califórnia, onde o clima e o astral liberal ajudavam.
Por um punhado de dólares, os veteranos de guerra levavam pra garagem um refugo de guerra ou uma bike antiga, barata e pesadona, e depenavam tudo.
Aí juntavam os amigos e saiam em quadrilha, se divertindo. Para formar “clubes”, portanto, foi um passo. Era o espírito gregário das tropas gritando basta.
Eis que… a coisa começou a degringolar.
Maus lençóis
A HD era uma das marcas mais comuns, mais fáceis de mexer, e qualquer cidadão do muito – ou do mal – podia ter uma.
Muito, a diversão virou arruaça. A arruaça virou violência. E a marca Harley acabou enroscada na galera dos anos 50 e 60 que quis evadir do “sistema” abastecendo a proeza com um tanto mais que gasolina – drogas e birita.
A turma passou a confundir liberdade sexual com doesto. Havia um mote sedutor para o entorpecimento físico e comportamental – o verso de William Blake “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Era um drive cult e legítimo, mas a ignorância falou mais basta.
No bojo de uma sociedade conservadora porquê os Estados Unidos da idade – prensa incluída –, os clubes de motoqueiros (havia mulheres entre eles) eram vistos porquê a moradia do diabo. Os motoqueiros não ajudavam muito. O “uniforme” dos caras – jaqueta de epiderme, jeans, botina, barba – virou a fantasia do demo. Hoje qualquer milionário de colete de epiderme referto de insígnias passa pela cancela do condomínio sem assustar o porteiro.
Notabilidade
Há muitas verdades no roteiro aí supra. E há casos polêmicos.
“Clubes” de motos, tipo Hell’s Angels – ou gangues, porquê a prensa os chamavam –, aprontaram muito. Mas os casos que levaram a maior reputação foram os de estupros atribuídos aos Hell’s Angels nos anos 60.
Sem spoiler.
Para maiores detalhes leia. Leia muito. Aliás, você vai perceber que a violência que criou o mito do motoqueiro rebelde é só uma segmento pequena da imensa história de diversão, liberdade, cultura e inovação que envolve o mundo da moto.
OK, segmento pequena, mas verdadeira. Ou você acha que foi eventualidade o trajo de a japonesa Honda se lançar no mercado americano em 1962 com o slogan “You meet the nicest people on a Honda!”? (em tradução livre, “O pessoal mais permitido você encontra numa Honda”).
O pregão da Honda ao entrar no mercado americano, em 1962: motos pequenas, gente família e entretenimento (Foto: reprodução)
Pra não falar que não falei de cores, cá vão quatro livros (e três referências) que vão iluminar e incendiar sua paixão por duas rodas. Quer proferir, os tais livros alimentaram a minha paixão, e foram escolhidos para nascente post por abordar a experiência de pilotar uma motocicleta sob vários ângulos: comportamental, cultural, artístico, tecnológico e até filosófico. Por filosófico, entenda-se: há muito mais entre o tanque e o asfalto do que um motor feito para derrubar você. Vamos lá.
The Harley-Davidson Reader (Motorbooks, 2006)Livro fundamental para qualquer interessado em comportamento, estilo e motocicleta. O volume reúne os textos mais importantes sobre tudo que envolve a marca Harley-Davidson. A inaugurar pelo prefácio, de Jean Davidson, neta do fundador. Ok, você pensaria: prefácio de neta é sinal de placa branca. Mezzo. São mais de 40 textos – artigos, reportagens, ensaios – que contam porquê a marca se tornou o nome mais icônico da indústria.
The Harley Davidson Reader: obrigatório para harleyros, triumpheiros e motoqueiros de qualquer etnia (Foto: reprodução)
Cá está a polêmica reportagem de Hunter S. Thompson sobre os Hell’s Angel’s, The Motorcycle Gangs: Losers and Outsiders, publicada em 1965 na revista The Nation. Daquela “convívio” com os caras, que se estenderia por quase um ano, surgiria seu livro Hell’s Angells: a Strange and Terrible Saga (1967), o texto pessoal e turbinado que levaria Hunter Thompson ao título de inventor do jornalismo gonzo (mas essa é outra história). The Harley Davidson Reader traz textos de Evel Knivel, o maluco que saltava sobre dezenas de carros (ou qualquer coisa), e de Sonny Barger, o presidente do chapter (filial) de Oakland nos dias “gloriosos” dos Hell’s Angels. Barger foi um dos nomes que mais projetaram a imagem dos motoqueiros bad boys em nossas mentes (acabou vendendo cerveja e camiseta com sua marca na internet). E aborda design, tecnologia, comportamento, cultura, entretenimento… Não conheço versão em português. Mas seu esforço será recompensado na lingua dos caras. Dá uma olhada na galeria:

De uma revista de 1935

Trecho da reportagem de 1947 da revista Life (a ‘bíblia’ do comportamento americano da idade): logo depois da guerra, a gênese do motoqueiro malvado

Citação do livro de Hunter S. Thompson, de 1967

A visão de Arlo Guthrie, rebento de Woody Guthrie. Arlo se apresentou em Woodstock, 1960 (Fotos do responsável)

The Art Of The Motorcycle (Guggenheim Museum, 1998)Uma moto, porquê qualquer objeto que tenha sido inventado para servir a humanidade (há qualquer que não foi?), tem no DNA dois cromossomos básicos: função e design. Mobilidade urbana, viagens, trouxa, trabalho no campo, turismo, off-road, competição, lazer – as funções são diversas. Ao longo do tempo (mais de um século), cada uma delas ganhou um estilo de moto privado. Umas têm carenagens. Outras são peladas. Tem aquelas cheias de mata-cachorro. Algumas têm um gradil colado ao banco pequeno. Há as que carregam bolsas ou bagageiro. Em cada um desses segmentos, os fabricantes mais legais assinaram seu nome por meio de designs originais. Quando conseguiram matrimoniar função e design num conjunto harmônico, belo, simples e elegante a ponto de provocar fascinação e prazer, fizeram de algumas motos objetos icônicos. E, para um dos museus de arte mais importantes do planeta, fizeram exatamente… arte.
O “catálogo” da exposição do Guggenheim de 1998: o tijolo mais lindo que 432 páginas poderiam produzir (Foto do responsável)
O Guggenheim Museum reconheceu o valor estético e cultural de algumas motos – heresia para quem vê a motocicleta porquê um item essencialmente tecnológico – e reuniu uma turma de curadores para formatar a exposição que seria o sonho de consumo de qualquer pessoa que acelere um veículo com a mão. Muito, e que tenha dois neurônios além daquele responsável pelo estabilidade.
Em junho de 1998, o Guggenheim de Novidade York abriu a mostra “The Art Of The Motorcycle”, com 95 exemplares sufocantes de tão belos. Sim, motocicletas de aço, ferro, vidro e borracha – zero de fotos, pinturas… A mostra durou até setembro. Em novembro, foi levada ao Museu de História Procedente de Chicago, onde ficou até março de 1999, e naquele ano, à filial do Guggenheim em Bilbao (Espanha). Quem viu viu.
Quem não viu pode comprar o incrível e custoso catálogo da exposição (vende no site do museu e na Amazon, mas comprei o meu no sebo Strand, em Novidade York, por um décimo do preço. O selo do preço está na foto supra). É um tijolo enorme, pesado e magnífico de 432 páginas com centenas de fotos das 95 motos e ensaios impagáveis sobre cultura, design e tecnologia. Sem narrar os textos da exposição, que contextualizam os períodos que a mostra aborda (oito segmentos, de 1868 a 1998).
A contracultura é um dos oito períodos abordados pela mostra – e explorados no livro (Foto do responsável)
Há motos das marcas mais inimagináveis, mas as históricas estão todas lá. Se sua clássica não manar na lista (as minhas Hondas dos anos 70 CB500 e XL Motosport não entraram) não fique triste. Ler esse tomo faz a gente rir sozinho, vibrar, se surpreender, ao constatar a enorme capacidade de o varão produzir coisas belas a partir da premência. São obras de arte que nos transportam para outro universo – independentemente se você usa sua Biz para ir até a panificação da esquina. Dá só uma voltinha na galeria inferior.

 
McQueens Motorcycles: Racing and Riding with the King of Cool (Matt Stone, Motorbooks, 2017)Esse livro já foi citado em outro post deste blog, mas só de raspão. Cá vai sua real valia: é um dos volumes mais ricos sobre as motos de um rosto que era chamado de “king of cool” (o rei do estilo, em tradução livre) e a relação que tinha com elas. Foram, aliás, as motos em segmento que fizeram de Steve McQueen “o rosto” de Hollywood nos anos 60 e 70. Era um planeta dissemelhante na indústria cinematográfica. Havia atores famosos que curtiam motor (Paul Newman, Robert Redford…), mas ele praticamente vivia para isso. Veio de insignificante, passou maus bocados na mocidade (família, orfanatos, rua), e desenvolveu uma maneira de ser única (para o muito e para o mal). Não aceitava regras, limites, e, a seu jeito (invasivo, interesseiro, enamorado, obcecado) encontrou nas motocicletas uma válvula de escape – na verdade, gostava de tudo que tinha motor. Foi um grande grande curtidor de Triumphs e Hondas quando tinha bastante virilidade, e já no caminho da maturidade (morreu cedo, aos 50 anos, de cancro de pulmão, em 1980) passou a colecionar motos. Seu barato era fazer cross no deserto californiano. Competiu em enduro. De moto e de sege. Pilotou em Le Mans (a corrida que originou o famoso filme, idealizado por ele). No final da vida, já doente, morou num trailer no meio do zero.
“The king of cool” retratado a partir de sua relação com motocicletas (Foto do responsável)
O livro McQueen’s Motorcycles, de Matt Stone, conta essa história em detalhes. Conta sobre epopeias (o set de A Grande Escapada, em que ele faz um prisioneiro que foge dos nazistas voando sobre os arames farpados a bordo de uma BMW – na verdade uma Triumph fantasiada). Fala das vezes que ia às feiras de quinquilharias procurar peças para suas vintages. Trata de filmagens, competições e amigos que fizeram de sua vida uma proeza inexaurível. Não fala muito de seus casos amorosos, primeiro, por não estar no escopo do projeto e, segundo, provavelmente, porque o livro contou com a ajuda de Neile Adams, esposa do ator entre 1956 e 1972. O volume ainda dá uma passada pelo estado atual (em 2017) das bikes. Tudo documentado com o escora de 200 fotos. Moto e estilo, basicamente é disso que o livro trata. A galeria de fotos inferior dá uma palhinha…

O leilão que McQueen promovoveu de suas motos em Las Vegas, em 1984

A epístola de motociclista internacional e o capíitulo 3, sobre competir pra valer

A página que tem uma das fotos mais legais: Steve procurando peças em uma feira vintage

Rara foto da Triumph travestida de BMW usada no filme “The Great Scape” (cá, fora de cena, pois dá pra ver as borrachas que protegem o tanque, típicas da Triumph). (Fotos do responsável)

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas (Robert M. Pirsig, Tranquilidade e Terreno, 1984)Esse é um livro capaz de desgostar a gregos e troianos. Quem acha que é uma road novel (história de viagem) vai encontrar muita filosofia, questionamentos. Quem acha que é sobre manutenção, vai permanecer invencível – tem, mas está longe de ser um manual Clymer. Agora, quem procura um livro viajandão sobre viagem de moto, procura de sentido para a vida (o subtítulo “Uma investigação sobre valores” avisa os desavisados), sobre a materialidade dos objetos que nos circundam, tem nesse relato um prato. Cá estão sacadas insólitas, inusitadas, originais, que vão cutucar sua loucura por motocicletas via cérebro ou coração. Você pode não curtir, mas elas estão lá.
Cobertura da edição brasileira de 1984: o sucesso mundial do livro pouco teve a ver com motociclistas (Foto do responsável)
A história é a seguinte: em 1968, o jornalista (com formação em química) Robert M. Pirsig pegou sua Honda CB77 Super Hawk, de 305cc, jogou o rebento jovem na garupa, e se mandou de Minneapolis (Minnesota) para San Francisco (Califórnia). Foram mais de 9.000 quilômetros em 17 dias. O relato da poema (exposto em 388 páginas na edição brasileira) se tornou um das narrativas mais célebres já escritas sobre motocicleta e fez a cabeça de uma geração inteira – motoqueiros ou não – entre os anos 1970 e 1980. Lançado nos Estados Unidos em 1974, Zen é tido (exageradamente) porquê uma celebração da liberdade e da vida na estrada. Muitos tomaram a história do motoqueiro viajante – que tenta manter a moto funcionando durante a longa jornada – porquê uma reflexão sobre a relação do ser humano com a tecnologia (quando tecnologia não queria proferir informação). Há os que enxergam uma discussão sobre a valia da percepção abstrata – em contrapartida ao pensamento racional (razão e lógica) – no dia a dia das pessoas.
Vá na boa. Procure um sebo (parece estar fora de catálogo) e embarque você mesmo com todos os sentidos na Honda Super Hawk do Bob. Moto que, aliás, no término ano pretérito foi parar no Museu Vernáculo de História Americana, que faz segmento do Instituto Smithsonian. Pra quem não sabe, é o lugar que guarda a memória dos Estados Unidos. É tenro?
Ps.: Sim, você vai perguntar…

E o livro do Che Guevara, Diários de Motocicleta, que conta a viagem de moto (Uma Norton 1939) pela América do Sul em 1952, período em que Che desenvolveu suas ideias revolucionárias? Não li. Mas quando o Alberto Granado real – o colega de Che que aparece representado no filme homônimo de Walter Salles Jr. – veio ao Brasil para publicar o fime, fui entrevistá-lo (um velhinho maravilhoso). E soube que o mecânico que produziu réplicas da “poderosa” estava junto. Evidente, falei com Granado e aproveitei para falar com o artista das vintages, que esqueci o nome. Eu cobria a extensão cultural, mas não resisti e pedi para montar uma das réplicas que ele tinha feito e havia trazido ao Brasil porquê segmento da divulgação. Waltinho pode ter dourado a pílula de Che, mas o trabalho do mecânico prateado foi obra-prima.
E A Estrada da Trato, livro do Neil Peart, baterista da margem canadense Rush, que ele escreveu depois de literalmente trespassar pelo mundo a bordo de uma big trail? Peart estava transtornado com a perda da mulher e da filha, e caiu na estrada totalmente sem fado. Não posso comentar: não deu tempo de reler.
Também não li Jupiter’s Travels, livro Ted Simon, o rosto que deu a volta ao mundo nos anos 70 sobre uma Triumph Tiger 100, viajando através de 45 países countries. Ficam pra uma próxima.

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