Todo fusca é uma preciosidade – é não é pelos motivos que você pensa


Fusca: estética procura o forçoso, o obrigatório, mas transcende questões porquê propósito e tempo e impacta nossos sentidos com uma formosura original (Foto: Pixabay/Creative Commons)
Ringo Starr e Charlie Watts, bateristas dos Beatles e dos Rolling Stones, são músicos de movimentos econômicos, com técnica autoral, desenvolvida de forma pessoal – Ringo é canhoto mas toca em bateria para destros, e Watts, o mais velho dos Stones, sempre quis tocar jazz mas acabou numa orquestra de rock. O jeito de Watts segurar as baquetas e essa ponte esburacada entre os gêneros musicais foram determinantes para ele inventar batidas e levadas, que ajudaram a repuxar os Stones ao sucesso – não só por constituírem um estilo rítmico original e envolvente, mas por terem influenciado o jeito de o colega guitarrista Keith Richards tocar. A simbiose entre Watts e Richards (outro de técnica espartana) acabou rendendo, por exemplo, Satisfaction e Honky Tonk Women, dois dos maiores hits da história do rock. O que isso tem a ver com seu fusca? Tudo.
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Watts e Ringo são minimalistas. Sempre apostaram – por limitação ou propósito, não importa – na origem, no fundamental, deixando os enfeites de lado. Uma vez que um fusca – ou um Ford T, uma Lambretta, uma Honda XL 250, um Jeep Willys –, carregam um estilo, uma estética tão básicos e tão muito resolvidos que transcendem à função que desempenhavam quando apareceram para o mundo (prometer movimento). E que sobrevivem ao tempo, o grande senhor do bom sabor.
Ford T: o obrigatório do obrigatório, mas o design sedutor criado em 1908 faz qualquer mortal sorrir até hoje (Foto: Sicnag/Creative Commons)
Na sua era, o Ford T (1908) foi uma espécie de Satisfaction (cantiga que tem o mais famoso riff de guitarra do rock, formado de 3 notas, tocadas numa única corda). O Ford T surgiu com uma carroceria simples, montada sobre um chassi ridiculamente lacedemónio, empurrado por um motor tão compacto e sem frescuras que até pouco tempo detrás sobrevivia em fazendas no Uruguai na lida diária. Sim, no coméço do século já havia carros “fancy”, sofisticados, luxuosos (Cadillac Model K de 1906, por exemplo). E por que o Ford T virou um hit, clássico, o objeto do libido de todo antigomobilista ligado à era dos calhambeques? Primeiro, evidente, porque é indestrutível e há muitos entre nós até hoje. Mas principalmente porque às vezes adoramos coisas simples e belas. Isso mesmo, a velha história do menos é mais.
Se hoje você tem verba para comprar um sedã teutónico com 34 milénio chips, câmeras, sensores, módulos eletrônicos de controle, vá fundo. É muito lícito. Mas não olhe atravessado para quem se sente mais feliz dentro de um fusca ou de um jipe Willys — os carros mais presentes e longevos entre os espartanos e nascidos depenados.
Jipe Willys 1941: longevidade não está relacionada exclusivamente ao proósito; o design tem uma participação na sobrevivência (Foto: Manuel Alejandro Hung/PxHere Creative Commons)
A exemplo do Ford T, o Fusca, o jipe, a Lambretta, a XL não são longevos unicamente porque foram pensados para perseverar (sim, têm o DNA mais possante que seus contemporâneos e são fáceis de serem consertados). O traje de aparentemente não apodrecerem, não desmancharem com o tempo, também está ligado a um outro fator: está ligado ao design. Simpes: seu visual os faz muito queridos, e quem é querido ganha paixão, zelo, atenção.
Quem não abre um sorriso quando vê passar um fusca (ou fuca, porquê se diz no RS)? Suas características “humanóides” (nariz, olhos amendoados, sorriso cromado, testa redonda) são a simpatia em pessoa, ou melhor, em aço e vidro. Não foi por eventualidade que Herbie, um dos carros mais famosos do cinema juvenil, é um fusca.
Lambretta: originalmente lançada em 1947, foi desenhada para servir a uma população empobrecida pela guerra, que precisava se locomover em meio a escombros (order_242/Wikimedia Commons)
Ok, outros carros tentaram parecer amistosos, fofos, e não tiveram tanto sucesso. Daí vem a pergunta: o que faz do fusca — ou do Jeep Willys, ou da Lambretta — um ícone do design, do estilo, do bom sabor? Resposta: a sofisticação despojada de suas linhas, a simetria visual, que conforta nossa percepção, nossos sentidos, que ilumina a visão que temos sobre as coisas, que nos enche de alegria e viveza, que nos faz crer na humanidade e no horizonte. (Aliás, o que é a arte senão um pouco que provoca esses efeitos?).
Bugatti 57C Atlantic, dos anos 30: diferentemete dos fuscas, suas longas linhas curvas e o desequilíbrio dos volumes foram feitos para seduzir o consumidor do topo da pirâmide. Arte? Se sim, o fusca também é. (Foto: 99Do dedo/Creative Commons)
A Bugatti Type 57 SC Atlantic dos anos 30 é um dos carros mais lembrados em termos de sofisticação de design (cá se trata de voo criativo, da inventividade do designer, não dos eventuais componentes usados na construção do coche). A formosura das curvas, o sensual desequilíbrio dos volumes, a fluidez das linhas e a elegância do conjunto fazem deste objeto industrial quase uma obra de arte. É uma obscenidade de tão lindo. O Coopersucar FD01, desenhado por Ricardo Divila, talvez seja o coche mais bonito já criado na maior categoria do automobilismo (sem patriotismo histrião cá, por obséquio). Mas o jeitão strip down, de coche pelado, do fusca e da Lotus 49 (1967), com suas formas explícitas, mignon, seu estilo outspoken, objetivo, down to earth, com suas linhas enganosamente óbvias, atraem nossos olhos com o mesmo potencial de sedução. Nos fornecem o mesmo ou talvez maior substrato para sonhar. Nos colocam mais próximos, são menos ameaçadores.
Em resumo, por serem básicos, com uma fisionomia supostamente despida de ambições grandiosas, nos fazer enxergar a nobreza da humildade e o singelo amplexo da simplicidade.
Lotus 49: o coche que reinventou a F1 (o motor passou a ser secção do chassi), hoje parece um brinquedo, mas seu estilo “pelado” atrai os olhos de qualquer amante da velocidade. Levante foi de Graham Hill e está no Beaulieu Motor Museum, Hampshire (Inglaterra) (Foto: Peter Trimming/ Creative Commons)
Quando tocamos no ponto cobiça, falamos novamente de design, de estilo. Porque também se pode falar de cobiça financeira, política, social. Por exemplo, o fusca, diferentemente de uma Bugatti, foi desenhado porquê um coche para as massas, a mando de Hitler, numa estratégia malévola de perpetuação no poder e sedução das mentes. Da mesma forma, o Lotus 49 só fora inventado daquela forma revolucionária (o motor era secção integrante do chassi, o que eliminou muito aço, treliça, soldagem, peso, torção e riscos) porque Colin Chapman queria coroas de louros – ou champanhes, porquê se passou a comemorar as vitórias na F1.
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Propósitos são motores da arte, sabemos disso (mesmo alguns maus propósitos). Assim porquê o jipe, a Lambretta também surgiu na esteira da II Guerra Mundial. Reza a mito que eram feitas com os motores de partida dos bombadeiros italianos que sobraram do conflito e foram idealizadas para a locomoção de uma população empobrecida que devia trafegar em “ruas” cercadas de escombros .
O paradigma do estilo ‘menos é mais’: linhas que fluem sem soído e fisionomia simpática (Ilustração: OpenClipart-Vectors Pixabay)
Mas se propósito e função podem ser realmente um drive poderoso na geração de um veículo (ou de qualquer objeto), é a originalidade humana que vai dar vida — e às vezes longevidade — ao projeto. Não existiria um fusca porquê o conhecemos ou um Lotus 49 se não houvesse um Ferdinand Porsche ou um Colin Chapman. É a cabeça do designer, suas referências, seu repertório, sua visão de mundo – e sua cobiça criativa, sua inventividade – que dão forma às coisas. Foi detrás de uma complexa bateria (3 tambores, 3 ou 4 pratos, tocados com as duas mãos e os dois pés), que Ringo e Charlie Watts criaram os andamentos mais simples e ao mesmo tempo mais sofisticados dos anos 60, levadas que botaram muita gente pra dançar ou refletir, transpor de mansão, viajar, desabar na estrada, se mandar detrás dos próprios sonhos.
A simplicidade, quando traz em suas formas a percepção de simetria, estabilidade, formosura, sensualidade e vibração, tem o poder de impactar a vida porquê poucas coisas na natureza – da vastidão de mares, espaço e desertos a soluções grandiosas para as dores do varão porquê as ideologias que nos seduzem e aprisionam. A sofisticação do ‘menos é mais’ pode ser uma poderosa inspiração para a vida. E para a compra do seu próximo coche. Quem sabe um dia ele não vira uma preciosidade porquê o fusca?
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