O prazer (e a maluquice) de quem vive o mundo dos veículos antigos


Um Mercury 1948 “cubano”: num padrão desses (com mesma grade e cor), dei meus primeiros passos no universo vintage e entendi o que a paixão por clássicos pode fazer com suas emoções (Foto: Wallpaper Flare/Divulgação)
Antes mesmo da maravilhosa vaga de garimpar, restaurar e curtir veículos antigos que tomou conta do país anos detrás e vive seus dias de glória (ou, para muitos, seus dias de preços bizarros), tive a sorte de ter um pai antigomobilista. Era médico, mas curtia mesmo história, design, mecânica, marcenaria, e era craque com parafusos e pistolas de pintar. Não se nasce amante de velharias. É uma “mania” que você herda. Do avô, do pai, da mãe, dos amigos. Evidente, a vaga atual (pré “gentrificação”, com a licença semiologia) tem muitos outros fatores: a renovação acelerada da frota brasileira nos anos 1990 em diante, que deixou pérolas perdidas na garagem de muito tio; a liberação e depois o barateamento dos veículos importados, que fez muitos corações, que antes batiam silenciosos pelo velho Karmann Ghia do vizinho, terem arritmias por marcas de sonhos uma vez que BMW, Audi e Land Rover; e, na última dezena, a enxurrada de programas de TV sobre carros antigos, que mostram em 45 minutos uma restauração que levou três anos para ser concluída.
Tempestade perfeita: “Agora é a hora de eu lembrar minha puerícia”, pensaram várias pessoas que mergulharam no universo dos antigos. Aí o preço da ferrugem explodiu. E eu tive de pular fora.
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Nos anos 1980, ganhei do velho uma Vemaguet 1967 (perua DKW), que me levava para a faculdade. Era uma excentricidade para um jovem na era – mesmo no Rio Grande do Sul, celeiro de preciosidades, onde nasci. Naquela dezena, carruagem vintage era coisa de velho nostálgico. Não para mim e minha família.
O velho contava que, recém-casado, havia “customizado” um DKW dos anos 30 sozinho, na garagem (fez um woody). Depois, quando eu já era moleque, teve um Candango (jipe DKW dos anos 60, do proclamação aquém), no qual aprendi a encaminhar (ok, muito antes de ter epístola, mas essa é outra história). O grande barato foi quando ele resolveu reformar um Mercury 1948 em vivenda. Jovem, eu ajudava apertando braçadeiras embaixo do carruagem, ligando o V8 quando ele queria ver um pouco naquele cofre gigantesco, colocando e tirando da garagem. As memórias são sentimentais, valiosas. Logo depois saí de vivenda para fazer a vida. O velho ainda tentou mexer num Willys Interlagos, mas a filamento de vidro provocou alergia e ele abandonou o projeto. Quando faltou paciência e força, desistiu de folgar.
Candango, jipe DKW, com motor 2T e primeira marcha não sincronizada, em que aprendi a encaminhar (Foto: reprodução)
Segui a saga quando, em 1991, já morando em São Paulo, consegui comprar uma Honda CB 500 Four 1973 (foi o ano da fenda econômica global, e começaram a chegar veículos importados). Moto era minha paixão e a Four era um sonho de juvenil. Reformei inteira. Linda. Corri muitos anos detrás dos escapes originais, dos reparos dos carburadores (quatro), dos cabos, dos amortecedores originais. Era uma poema descobrir qualquer peça. Até o final dos anos 1990 não se falava em e-commerce. Nem se imaginava que duas décadas depois os chineses iriam reproduzir até a bucha de borracha dos amortecedores das Yamahas trails dos 70’.
Honda 500 Four 1973: adquirida em 1991, pré tendência vintage, foi toda restaurada, menos o motor. (Foto: registro pessoal)
Tempos depois, a Four já nos trinques, fui buscar em Florianópolis uma Honda XL 250 Motosport 1975 e, seis meses na sequência, uma Yamaha DT 250 1974, do mesmo possuidor. Tinha uma picape Strada e puxava os 700 quilômetros numa tacada. No outro dia, botava a moto na caçamba (com a roda de trás saindo por cima da tampa) e rumava a longa jornada de volta. Feliz. Sozinho. Sonhando com a teoria de ter um pouco da minha memória afetiva, um pouco individual, um item das quais prazer era muito mais valioso do que o amontoado de aço e borracha que eu carregava.
Tive as três motos (e outras duas vintages) até poucos anos detrás. Sobrou uma Honda XL 250 1982.

Honda XL Motosport 1975: a segunda moto vintage, trazida em uma jornada de 1400 km. (Foto: Registro pessoal)

Yamaha DT250 1974: muitos põem óleo sintético para diminuir a fumaceira (Foto: Registro pessoal)

Honda Goldwing 1975: a moto mais rara da coleção, cor original para test ride nos EUA, que só apareceria no mercado no ano seguinte. (Foto: Registro pessoal)

Honda Dream 1995: repaginação de um clássico padrão da marca japonesa, usada para ir a panificação (Foto: Registro pessoal)

No fundo, é isso: carros ou motos antigos são um prazer e um inferno ao mesmo tempo. É meio uma vez que qualquer paixão. Você é seduzido, se entrega, luta, o relacionamento se desgasta, se apaixona de novo, vive um idílio, começa a desencanar, e, se não morrer antes, pula fora ou leva um pé (sim, há gente que dá uma rasteira nas suas convicções a ponto de você deixar a belezura partir, mormente se a pessoa for milionária).
Para quem está entrando no inebriante universo dos veículos clássicos, humildemente tentarei dar algumas dicas. Que fique evidente: sou um diletante. Nunca fui fanático uma vez que gente que conheço. Mas já vi cada coisa… Pior, vi em família. Certa vez, em viagem no interno do Rio Grande, meu velho avistou um Mercury enterrado na limo, numa residência rústico ao lado da estrada. O carruagem ainda tinha duas pequenas grades (enferrujadas) do enorme conjunto gradil que compõe a frente do padrão. Faltavam ao nosso. Não teve incerteza: deu meia volta, entrou na estradinha da vivenda, falou com o possuidor, e comprou ali mesmo as peças (pediu uma serra e teve de trinchar os parafusos oxidados). Saiu radiante, explicando a preço daquelas grelhas, sedentas pra dar tétano no usurpador que as tirou do leito de morte. Isso é só um pequeno exemplo do estado de torpor que a paixão por veículos antigos pode motivar. Vi coisas muito “piores”.
Em destaque, a “grelha” que faltava ao Mercury 1948 do meu pai e que o fez entrar numa propriedade rústico e negociá-la com o possuidor, que não tinha visto (Foto: Wikimedia Commons)
Logo, não se engane: 1) você vai encontrar 90% de malucos (no melhor dos sentidos); e 2) 10% de quase malucos.
Talvez os malucos não gostem das dicas deste post. Talvez achem que não tenho poder pra falar (nunca coloquei placa preta, por exemplo, embora todos as minhas motos tivessem recta a essa famosa certificação de autenticidade. É que sempre achei que placa preta era carteirinha do clube dos 90% e, uma vez que discípulo de Marx, de tendência Groucho, não sou de fazer secção de clube).
Dito isso, cá vão minhas humildes dicas aos entusiastas neófitos. São unicamente reflexões sobre minha própria experiência na superfície, portanto ninguém deve levar uma vez que verdade absoluta. Mas vale refletir sobre…
InformaçãoSe você não saber e curtir história e design, há grande risco de você passar vergonha. Restaurar ou mesmo customizar (heresia para puristas) veículos antigos requer estudo, muita leitura, horas no YouTube, papo com especialistas. Evidente, e uma disposição de permanecer longe da família e da roda de amigos. Sim, você vai ter de submergir nos intestinos da internet para evitar que a picape dos seus sonhos seja vista uma vez que a fubica do trio elétrico do circo marambaia. E vai ter de gastar muita seiva com seu mecânico para aprender tudo o que ele quiser ensinar. Ele provavelmente sabe de truques que não estão na internet.
TempoComo sugerido supra, você vai investir horas preciosas da sua vida na galhofa. E vai subtrair essas horas da convívio com sua faceta metade, filhos, amigos, colegas de trabalho. Sábado de manhã é período que todo antigomobilista se isola da “vida real”: leva o brinquedo para passear, vai à oficina – na maioria das  vezes só para escadeirar papo –, veste o velho macacão engraxado para encerar e trocar a lâmpada queimada do pisca, vai na rossio onde sabe que vão seus colegas que têm a mesma “doença”. Muito, alguns vão tomar chope com os devotos do sábio geral (mas essa também é outra história).
PaixãoNada será mais útil na hora de procurar peças, descobrir mecânicos, refazer projetos, viajar centenas de quilômetros ou cruzar oceanos detrás de partes, permanecer com o carruagem parado meses por falta de um maldito parafuso… A paixão (e cá não estou falando de preocupação, geral na turma) vai recompensar seus dias inglórios com momentos de gozo. A via crucis do restauro vai render orgulho, autoestima, sensação de capacidade, espanto. E isso não é pouca coisa.
ConfiançaHá malandros no Brasil, há malandros detrás de um perfil do eBay, num e-commerce chinês, numa loja on-line europeia. Porquê muitas vezes você vai depender de outros para seu projecto dar claro, fique de olho neles. A vida do dedo diminui os riscos – se você souber vasculhar perfis, comentários, farejar avaliações falsas e não for impetuoso. Mas nem tudo é do dedo: na hora de penetrar a tampa do cabeçote do seu V8 flathead Ford 1951, você vai ter de saber um com mecânico. Mais do que bom: confiável. E vai ter de confiar nele quando ouvir que a tampa está empenada e que vai custar R$ 2 milénio reais para retificar (sei lá quanto custa o serviço…). Eu tive sorte: entreguei minhas seis motos vintages para a mesma oficina por três décadas. Estabeleci uma relação de crédito com os donos a ponto de nos tornarmos amigos.
AutoconhecimentoÉ legítimo tratar a relação que você tem com seu brinquedo desmontado uma vez que uma terapia: 1) uma vez que toda boa terapia (nunca fiz, mas já ouvi maravilhas), você vai transpor melhor depois de estreitar uns parafusos que andavam soltos; 2) posteriormente uma sessão de 50 minutos tentando fazer aquele platinado entrar no ponto, você vai se perguntar: por que estou fazendo isso tudo?
Terapia tem disso. É uma longa jornada, em você vai se defrontar com suas virtudes, atributos, qualidades, valores, habilidades e manias. Tais uma vez que:

TolerânciaDeixar um carruagem 100% original pode levar qualquer um a loucura (imagine descobrir 134 parafusos diferentes medidos em polegadas, quando o mundo todo hoje trabalha na graduação milimétrica). Você vai ter de fazer concessões, para não pirar. Há gambiarras honestas, aceitáveis, até na igreja dos mais fanáticos apóstolos vintages. Sem descrever que a tecnologia está aí para melhorar nossas vidas (um pequeno exemplo: óleos sintéticos fazem menos fumaça nos motores dois tempos).
SociabilidadeSe você for um faceta zen, desobstruído, easy going, vai lucrar muitos amigos nesse meio. A imensa maioria do pessoal adora falar. Sobre carros, é verdade. Ou sobre viagens de carruagem. Ou sobre viagens pra trazer peças. Sobre uma vez que achou o emblema do radiador do Chevrolet 1931 na garagem da velhinha viúva. Muitos têm predileção por papos sobre preços, mormente se forem barganhas. Aliás, se você é meio antissocial e não curte jogar conversa fora, vai perder o melhor do antigomobilismo – os encontros. Ok, eles podem ser um porre também: você vai permanecer uma hora falando com seu mais novo melhor colega sobre o velho Ford Bigode que ele trouxe da cidade da avó e… Espere aí! Você não tem o menor interesse por Ford Bigodes!
MaturidadeVocê sabe, carruagem macróbio, moto vintage, veículos clássicos, em universal, não são objetos de transporte do libido de gente jovem. Hoje, a galerinha fala de bicicletas, patinetes, pegar metrô e caminhar a pé. Se tanto, de uma bike elétrica. Ou seja, você vai encontrar uma turma mais madura. Leia muito, não se trata de Uma Thurman mais madura. OK, a ondinha vintage tem trazido um pessoal dos seus 30/40 anos pro rotação. Está na filete? É provável que já seja muito recebido. Mas a velha regra ainda conta entre os sábios do templo (ou do tempo): se não sabe folgar, nem desce pro play.
Capacidade de diversão, de ser lúdicoHá um velho ditado beat/hippie que prega que tão importante quanto o direcção é a viagem (alguns dizem que a viagem é mais importante, mas essa, também, é outra história). No trajeto da sucata até o troféu, você vai entender isso melhor. Um dos grandes prazeres de remontar um objeto macróbio é exatamente… a caça ao tesouro. Descobrir os pedaços enterrados em ilhas remotas. Montar o quebra cabeças. Não se trata de visitar a obra da reforma da sua vivenda. Trata-se de arregaçar as mangas e participar da escolha de cada arruela que vai permanecer escondida sob o carpete.

AdiçãoLeia esse tópico sob duas óticas semânticas: da soma e da submissão. Resumo da ópera: você não vai querer ter unicamente um veículo macróbio. De repente, meio sem querer, você compra uma segunda moto, sei lá, só para não detonar tanto a primeira restaurada, ou para não expor a belezura ao risco (de ser riscada ou de ser riscada da sua vida). E portanto você começa a dar um carinho no patinho mal-parecido. Arruma o banco, troca a relação, conserta o vazamento da torneirinha do tanque… Quando vê, o que era pra ser estepe vira uma novidade paixão. Você toma tanto carinho pela coisinha desengonçada que quer fazer dela uma obra de arte. Aí você diz: ok, vou comprar uma piorzinha, tão detonada que não vou nem querer mexer. Vai ser a última! Em pouco tempo, já tem uma coleção, está alugando uma garagem, e brigando com sua faceta metade (não se engane, você vai ouvir essa frase incessantemente: “Você só pensa nisso!”)
 
Coleção: o sintoma mais clássico de que você foi afetado pela “maluquice” do mundo vintage (Foto: Registro pessoal)
Fazer escolhasVai chegar a hora de vender. Porquê muitos, eu não acreditava nessa hipótese. Costumava perceber quando um faceta que veio elogiar a moto iria perguntar: “Você pensa em vender?”. Pouco antes, já levava o papo, literalmente, para a sepultura: “Minhas motos vão pro túmulo comigo”, dizia. Era batata: o faceta desistia da oferta antes de fazê-la e eu me livrava de uma longa negociação ou de ser seduzido por um xaveco irrecusável (leia-se $$$$). Depois de 30 anos cuidando das garotas, descobri que até uma paixão genuína, longa, pode rematar em relação desgastada (sem trocadilho com fluente e pinhão, ok?). Para falar a verdade, quando cai a ficha, dói pouco. Chega uma hora (ou idade) em que você pensa: ok, um problema a menos.
Se você chegou até cá, vai lucrar um prêmio pela paciência:
Nove verdades do mundo dos antigos:

Coche velho não é carruagem macróbio. Não, aquele Tempra lindo não vai dividir atenções ao lado de um Opala 1969.
Coche macróbio não é carruagem clássico. Seu Corcel II, desculpe, dificilmente vai se tornar clássico.
Tamanho não é documento: motor V8 ou moto 4 cilindros podem dar tanta dor de cabeça que você pode rematar reformando um fusca.
Preço não é garantia. Nem as barbadas – das quais restauro você imagina não vai custar o bastante para tirar seu inventiva da categoria de “bom negócio” –, nem os que custam os olhos da faceta – que fazem seus olhos crerem no “perfeito estado” descrito no proclamação e que você não vai “precisar fazer zero”.
Mosca branca não existe mais. Depois da internet, todo mundo sabe quanto vale um veículo clássico muito conservado.
Único possuidor não quer proferir que se labareda Ralph Lauren. O proprietário pode estar mais para o maníaco da serra elétrica.
Coche parado há 20 anos não é pérola de joalheria. Coche parado estraga.
Coche de velhinha não é o Land Rover da rainha da Inglaterra.
É a turma do bolinha. Infelizmente, a flutuação de gêneros é mínima.

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